Em 21 de novembro de 1980, enquanto o presidente João Batista Figueiredo cumpria agenda em Sergipe, o senador Gilvan Rocha ocupava a tribuna do Senado Federal. A visita presidencial não anunciava pacote de obras nem recursos para o estado. Figueiredo foi recebido em Aracaju com uma recepção que Gilvan chamou de “de certa forma forçada”, organizada por áulicos do regime.
Foi nesse contexto que Gilvan fez o pronunciamento que, 44 anos depois, revela-se uma previsão exata. Ele citou os números: Sergipe produzia 50 mil barris de petróleo por dia e 3 milhões de metros cúbicos de gás. E expôs o desequilíbrio. O estado gerava riqueza expressiva para o país, mas o retorno em investimentos federais era desproporcional. Sergipe produzia mais para o Brasil, mas recebia menos de volta. A crítica era direta: faltava polo petroquímico, faltava industrialização, e faltava a Petrobras reinvestir no campo de Carmópolis para que o auge não virasse declínio. Quem devia investir mais era a Petrobras.
O alerta era para a gestão Figueiredo, para a União e também para Sergipe. Não bastava recepção protocolar. Era preciso cobrar da estatal. Foi ignorado.
Quatro décadas depois, o cenário que Gilvan temia não apenas se confirmou. Ele se inverteu. Sergipe não só deixou de receber o investimento proporcional à sua produção. Perdeu o controle da produção que ainda tinha porque a Petrobras não investiu.
Em dezembro de 2022, a Petrobras concluiu a venda do Polo Carmópolis e de outros campos terrestres sergipanos para a Carmo Energy, empresa do grupo espanhol ACS. O negócio foi fechado por US$ 1,1 bilhão. Na entrega, o campo produzia 3,9 mil barris por dia. A justificativa da estatal foi a estratégia de “focar em águas profundas” e a classificação de Carmópolis como “campo maduro”. O projeto Sergipe Águas Profundas, o SEAP, que sustentaria essa tese, só deve começar a produzir depois de 2030.
A contradição veio rápido. Os mesmos poços considerados “envelhecidos” pela Petrobras, que rendiam 3,9 mil barris diários na entrega, já produzem 7,9 mil barris por dia sob gestão da Carmo Energy. A meta anunciada pela empresa espanhola é alcançar 20 mil barris diários até 2032. Ou seja, o que foi classificado como prejuízo para a estatal transformou-se em lucro para o capital estrangeiro. A diferença foi uma só: investimento. A Carmo Energy anunciou R$ 3 bilhões para reativar poços e aplicar técnicas de recuperação. Fez em um ano o que a Petrobras não fez em vinte. Era a Petrobras quem devia ter feito.
O discurso de Gilvan Rocha em 1980 era de que Sergipe, com 50 mil barris diários, precisava que a Petrobras investisse para não perder protagonismo. A resposta veio em etapas. Primeiro, a gestão Figueiredo ignorou o alerta durante a visita ao estado. Nas décadas seguintes, a Petrobras desinvestiu progressivamente no onshore sergipano. Por fim, vendeu.
O estado que produzia mais para o Brasil do que o retorno recebido passou a ter sua principal riqueza terrestre controlada por capital estrangeiro porque a Petrobras não cumpriu seu papel de investir. Se antes a questão era a desproporção entre produção e investimento da Petrobras, hoje a questão é a perda do ativo. O senador não errou o diagnóstico. Errou quem, na Petrobras, decidiu que campo terrestre não merecia atualização tecnológica e que vender era melhor que reestruturar.
Sergipe tinha 50 mil barris por dia e um senador preparado, com voz altiva no Senado, cobrando que a Petrobras investisse em 1980. Teve décadas de gestão da estatal que confirmaram a profecia às avessas. O problema nunca foi o campo envelhecer. Foi a falta de investimento da Petrobras envelhecer a capacidade de um estado inteiro gerir a própria riqueza. Quando Sergipe tinha voz no Senado, o alerta foi dado. Ignoraram. O resultado está aí.
Antônio Porfirio de Matos Neto
Economista e Mestre em Economia


