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DOM QUIXOTE E SANCHO PANÇA NO MUSEU DO CANGAÇO

by Redação
07/09/2026
in Destaques, Entretenimento
DOM QUIXOTE E SANCHO PANÇA NO MUSEU DO CANGAÇO
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O Museu do Cangaço, no Povoado Alagadiço, em Frei Paulo/SE, incorpora ao seu acervo mais uma importante peça: a obra Dom Quixote e Sancho Pança, de autoria do artista plástico Eraldo Lima. Trata-se de um quadro de 1,00 x 1,00 m, em óleo sobre tela, com moldura dourada nobre, uma obra de grande força plástica e estética, que vem enriquecer ainda mais o nosso acervo. Peça adquirida com recursos próprios do curador do museu.

Fruto do esforço contínuo de preservação da memória que este museu vem realizando. Um museu do interior de Sergipe que, com muito trabalho e dedicação, vem formando um acervo de relevância nacional, mostrando que é possível fazer museologia de qualidade no sertão, com seriedade e compromisso com a história.

A obra nos reporta a Miguel de Cervantes. Cervantes nos deu Dom Quixote, que começou como Cavaleiro da Triste Figura e que o povo consagrou como Cavaleiro da Esperança; um homem que achou que o mundo, como estava, não servia e resolveu inventar o seu próprio mundo.

É essa narrativa que faço a ligação com Lampião, e é por isso que esta obra está no Museu do Cangaço.

Lampião também inventou o seu próprio mundo. Fez-se Governador do Sertão, instituiu a sua lei, a sua justiça e a sua honra. Como Dom Quixote, passou a vida lutando contra moinhos de vento. E quais são os moinhos de vento do sertão? Os gigantes que ninguém vê.

E aqui é preciso explicar: o gigante invisível não é a seca. Não é a fome. Não é o abandono. Porque a seca todo mundo vê. A fome todo mundo vê. O abandono todo mundo vê.

O invisível são as causas. São os responsáveis que nunca se apresentam como responsáveis: o coronelismo, determinada classe política, os que estão por trás, sendo os mentores de tudo isso, mas que se intitulam como os não responsáveis. São esses os gigantes invisíveis. São esses os moinhos de vento contra quem Lampião, como Dom Quixote, lutou a vida toda, porque são eles que não querem que nada mude.

Mas toda história tem o seu outro lado, e é nesse outro lado que entra Sancho Pança.

Se, em um momento, Lampião foi Dom Quixote, o cavaleiro idealista que desafiava o sistema, em outro momento ele foi o próprio Sancho Pança. Houve uma relação de interesse muito clara. Coronéis por trás davam proteção, davam apoio, passavam informação, utilizavam o poder e a valentia de Lampião para suas disputas internas, para eliminar adversários, para resolver suas questões políticas. Mas, é bom que se diga, Lampião também tinha o seu interesse nesse sistema. Era uma troca. Era uma relação promíscua entre o coronelismo e o banditismo rural.

Nessa relação, Lampião foi cooptado. Em certo momento, deixou de ser o cavaleiro autônomo e passou a ser o escudeiro, o braço armado do sistema que dizia combater. E até a forma como morreu mostra isso. Foi cooptado até o fim. Foi entregue, foi traído dentro dessa mesma teia de proteção e interesse que o sustentou por tantos anos. Quando não interessava mais, o sistema que o protegeu foi o mesmo que facilitou a sua queda. Por isso ele foi Sancho Pança. Porque foi instrumentalizado.

Dom Quixote e Sancho Pança: o sonho e a realidade, a resistência e a cooptação, tudo isso em uma única obra. E é por isso que ela está aqui, porque esta história mostra que o sertão não é um mundo à parte; o sertão também é universal.

Antonio Porfirio de Matos Neto
Museu do Cangaço – Povoado Alagadiço – Frei Paulo/SE

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