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Zozimo Lima, Imortal, Escreveu Lampião em Capela nos Fatos; Antônio Porfírio, Acadêmico, Registra Lampião em Alagadiço da Oralidade à Escrita Ampla

by Redação
26/05/2026
in Destaques, Educação
Zozimo Lima, Imortal, Escreveu Lampião em Capela nos Fatos; Antônio Porfírio, Acadêmico, Registra Lampião em Alagadiço da Oralidade à Escrita Ampla
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Resumo
Analisa-se a distinção entre os registros da passagem de Lampião por Capela e pelo povoado de Alagadiço, em Sergipe. Zozimo Lima, imortal da Academia Sergipana de Letras, documentou Capela em 1929 com base factual. Antônio Porfírio registrou Alagadiço partindo da oralidade para a escrita ampla, a partir de 1999. Discute-se como o tempo da escrita definiu o lugar de cada localidade na historiografia do cangaço, destacando o ciclo do algodão, o banditismo rural e as figuras do Coronel Napoleão Emídio da Costa e Ana da Costa Rego.

Palavras-chave: Cangaço; Lampião; Capela; Alagadiço; Zozimo Lima; Oralidade; Historiografia.

1 Introdução
A passagem de Lampião por Sergipe deixou marcas distintas em Capela e no povoado de Alagadiço, em Frei Paulo. A diferença entre os dois lugares não está apenas na geografia – município e povoado –, mas no tempo e na forma como entraram para a história do cangaço. Capela foi registrada no calor dos fatos, em 1929, pela pena de Zozimo Lima. Alagadiço permaneceu na oralidade por décadas, ganhando projeção escrita de forma tardia e pontual. O resgate completo da trama de Alagadiço só veio a público a partir de 1999, com meus livros, e se aprofundou com estudos recentes sobre o Coronel Napoleão Emídio da Costa e sua poderosa cunhada, a matriarca de Alagadiço Ana da Costa Rego, revelando as tramas do poder político local, o ciclo do algodão e o banditismo rural.

Este artigo discute por que Alagadiço entrou tardiamente no mapeamento do cangaço de forma aprofundada, e como a escrita definiu o lugar de cada localidade na memória do fenômeno.

2 Capela: o registro imediato de 1929
Zozimo Lima era telegrafista em Capela quando Lampião chegou à cidade, em 25 de novembro de 1929, às 20 horas. Numa época de analfabetismo generalizado, dominar a escrita era deter poder. Zozimo registrou o episódio no momento em que ocorreu. O relato está no livro Variações em Fá Sustenido: crônicas.

Em seu texto, Zozimo narra: “estava no cinema quando Lampião chegou. O cangaceiro exigiu do prefeito a arrecadação de 20 contos de réis. Alegando seca de três anos e comércio fraco, o prefeito negociou. Lampião respondeu que também vinha de uma seca de quatorze anos e pediu pelo menos 6 contos. Arrecadaram 5 contos. Lampião impediu Zozimo de voltar ao telégrafo e mandou interromper toda a comunicação da cidade – telégrafo e telefone – para evitar aviso à Secretaria de Segurança. Depois disso, retirou-se”.

Zozimo Lima, que depois se tornaria jornalista e imortal da Academia Sergipana de Letras – título dado pela Casa aos membros falecidos –, colocou Capela no circuito do cangaço exatamente por ter escrito. Capela teve um cronista contemporâneo ao fato.

3 Alagadiço: da oralidade ao registro tardio e pontual
O povoado de Alagadiço, no município de Frei Paulo, viveu situação oposta. O primeiro passo foi a oralidade, que manteve a memória local por décadas. Sem um escritor contemporâneo aos fatos, a narrativa ficou restrita à tradição oral.

O registro escrito de Alagadiço apareceu tardiamente e de forma pontual, com livros e cordéis das décadas de 1960 e 1970:

3.1 Década de 1960
RABELO, Olímpio. Retalhos de História. Aracaju: Livraria Regina, 1966.
D’ALMEIDA FILHO, Manoel. Zé Baiano, vida e morte. São Paulo: Editora Luzeiro, 1966.
D’ALMEIDA, Manoel. Os Cabras de Lampião. São Paulo: Editora Luzeiro, 1966.
GÓES, Joaquim. Lampião, o último cangaceiro. Aracaju: Livraria Regina, 1966.
SOUZA, Antônio Conrado de. Momentos da minha vida. Rio de Janeiro: Edvan Reis Arte Gráfica, [s.d.].

3.2 Década de 1970
RABELO, Olímpio. Memórias, História, Folclore, Lampião, Política… Rio de Janeiro: Editora Pongetti, 1973.
OLIVEIRA, Aglaé Lima de. Lampião, Cangaço e Nordeste. Rio de Janeiro: Edições O Cruzeiro, 1970.

Esses livros refletiram uma questão cultural da época. A historiografia de então se deteve quase exclusivamente ao episódio da morte de Zé Baiano, sem aprofundar a trama política e social do povoado de Alagadiço. Não houve, naquele período, progressão de estudos que permitisse ir além do fato isolado. Faltou revelar o envolvimento do povoado com o banditismo rural, as disputas do ciclo do algodão e o papel de figuras como o Coronel Napoleão Emídio da Costa e a matriarca Ana da Costa Rego.

4 O resgate completo: da oralidade e da escrita pontual ao estudo minucioso
Alagadiço só ganhou dinâmica historiográfica depois, com os meus livros. Resgatei da oralidade e da escrita pontual centrada na morte de Zé Baiano para, além da trama, empreender um estudo minucioso do envolvimento do povoado num complexo maior do que aconteceu na região. Toda a trama só foi revelada a partir de 1999, com a publicação do meu livro História de Frei Paulo. O trabalho foi aprofundado em 2006, com Lampião e Zé Baiano, o povoado Alagadiço. Neles, trato não apenas da morte de Zé Baiano, mas de todo o envolvimento do povoado com o fenômeno do cangaço, deixando claras as discussões para além de Zé Baiano.

Em pesquisas mais recentes, aprofundei o envolvimento entre o Coronel Napoleão Emídio da Costa e sua poderosa cunhada, a matriarca de Alagadiço Ana da Costa Rego. Esse estudo resultou no meu artigo Ana da Costa Rego: a matriarca de Alagadiço e Frei Paulo, publicado em 2025 na coletânea Sertão de Bravos 2, da Academia Brasileira de Estudos dos Sertões Nordestinos, pela Editora TDA Gráfica Floresta, Pernambuco.

Também desenvolvi o estudo A Sociedade em Sergipe: uma análise da violência e do poder, tratando do ciclo do algodão em relação ao banditismo rural. Esse estudo foi apresentado em palestra na Escola da Assembleia Legislativa de Sergipe em 28 de julho de 2025 e também foi apresentado na Academia Sergipana de Letras.

5 Conclusão
Capela entrou na história do cangaço em 1929; Alagadiço, tardiamente, décadas depois. A diferença não é de geografia, é de tempo. E o tempo, aqui, foi marcado pela escrita.

Não por acaso, os dois cronistas desses tempos distintos partilhamos a mesma Casa: a Academia Sergipana de Letras. Zozimo Lima, já imortal – título dado pela Casa aos membros falecidos –, registrou Capela no calor dos fatos. Eu, membro da mesma instituição, resgatei Alagadiço da oralidade e da escrita pontual para um estudo mais amplo.

Dois tempos, uma mesma força definindo a memória: a palavra escrita.

Sobre o autor
Antônio Porfírio de Matos Neto

Formação
Graduado em Direito, Economia, Filosofia, Ciências Políticas e Administração. Pós-graduado em Gestão Municipal e Gestão Pública. Mestre em Economia. Doutorando em Filosofia.

Instituições
Professor da Universidade Federal de Sergipe.
Membro da Academia Sergipana de Letras.
Membro da Academia Brasileira de Estudos dos Sertões Nordestinos.
Funcionário da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba – Codevasf.

REFERÊNCIAS

D’ALMEIDA, Manoel. Os Cabras de Lampião. São Paulo: Editora Luzeiro, 1966.

D’ALMEIDA FILHO, Manoel. Zé Baiano, vida e morte. São Paulo: Editora Luzeiro, 1966.

GÓES, Joaquim. Lampião, o último cangaceiro. Aracaju: Livraria Regina, 1966.

LIMA, Zozimo. Variações em Fá Sustenido: crônicas. 2. ed. ampliada e revisada. Aracaju: Gráfica Editora Triunfo Ltda, 2003.

MATOS NETO, Antônio Porfírio de. História de Frei Paulo. Aracaju: [s.n.], 1999.

MATOS NETO, Antônio Porfírio de. Lampião e Zé Baiano, o povoado Alagadiço. Aracaju: [s.n.], 2006.

MATOS NETO, Antônio Porfírio de. Ana da Costa Rego: a matriarca de Alagadiço e Frei Paulo. In: Sertão de Bravos 2. Recife: Editora TDA Gráfica Floresta, 2025. Publicação da Academia Brasileira de Estudos dos Sertões Nordestinos.

MATOS NETO, Antônio Porfírio de. A Sociedade em Sergipe: uma análise da violência e do poder. Palestra apresentada na Escola da Assembleia Legislativa de Sergipe, 28 jul. 2025. [Inédito]. Apresentado também na Academia Sergipana de Letras, 2025.

OLIVEIRA, Aglaé Lima de. Lampião, Cangaço e Nordeste. Rio de Janeiro: Edições O Cruzeiro, 1970.

RABELO, Olímpio. Retalhos de História. Aracaju: Livraria Regina, 1966.

RABELO, Olímpio. Memórias, História, Folclore, Lampião, Política… Rio de Janeiro: Editora Pongetti, 1973.

SOUZA, Antônio Conrado de. Momentos da minha vida. Rio de Janeiro: Edvan Reis Arte Gráfica, [s.d.].

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