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CRÍTICA À OS SERTÕES: CONTRADIÇÕES E REINTERPRETAÇÃO DO JAGUNÇO-GUERRILHEIRO

by Redação
19/05/2026
in Destaques, Educação
CRÍTICA À OS SERTÕES: CONTRADIÇÕES E REINTERPRETAÇÃO DO JAGUNÇO-GUERRILHEIRO
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Antônio Porfírio de Matos Neto

RESUMO

Este ensaio analisa criticamente a obra Os Sertões, de Euclides da Cunha, marcada por base positivista e evolucionista. Em contraposição a essa leitura, defende-se aqui a tese de que o jagunço era um guerrilheiro da caatinga. Argumenta-se que a derrota de três expedições militares evidencia estratégia, não atraso, e que a matriz euclidiana reproduz uma pseudociência ainda usada para julgar o Nordeste.

Palavras-chave: Euclides da Cunha. Canudos. Jagunço. Evolucionismo cultural. Nordeste.

A máxima “o sertanejo é, antes de tudo, um forte” não redime Euclides da Cunha; ao contrário, denuncia a contradição que estrutura Os Sertões. Redigida sob a égide do positivismo e do evolucionismo do século XIX, a obra analisa o sertanejo por uma lente hierárquica: mede, compara e condena. A força aparece como exceção exótica; a regra implícita é o atraso.

A tese deste ensaio contrapõe-se a Euclides: o jagunço não era o fragilizado que se fortaleceu por necessidade. Era, em essência, um guerrilheiro da caatinga — esguio, versátil e senhor do território. A história comprova essa tese. O Exército Republicano, símbolo da técnica e da “civilização”, enviou quatro expedições militares contra Canudos¹. As três primeiras foram derrotadas pelos jagunços de Antônio Conselheiro. O Exército venceu apenas na quarta expedição, em outubro de 1897, quando arrasou o arraial².

Todavia, o fato de terem sido necessárias quatro campanhas, mobilizando doze mil soldados de dezessete estados, desmonta a narrativa do “atraso”. Quem venceu três batalhas? O sertanejo sem academia militar, sem Estado-Maior, sem manuais de guerra.

Ao tomar Canudos, as tropas encontraram apenas mulheres, velhos e crianças. Onde estavam os combatentes? Os “fortes” não se deixaram catalogar pelo olhar do vencedor. A resistência recusou-se a tornar-se peça de museu. O que Euclides descreve como vazio é, na verdade, evidência de estratégia. Eram guerrilheiros, não fanáticos empunhando orações: nunca se registrou, na história, que mulheres e crianças derrubassem exércitos. Foram jagunços que resistiram.

O equívoco teórico de Euclides reside em sua filiação a uma pseudociência. Ele não dialoga com Franz Boas, que destruiu a tese do evolucionismo linear e demonstrou a inexistência de hierarquia universal entre culturas³. Euclides lê a diferença como inferioridade. Essa matriz ainda persiste: analistas do Sul e Sudeste reproduzem, sem crítica, o diagnóstico euclidiano e convertem estereótipo em política pública.

É preciso esclarecer: o fenômeno messiânico-religioso não é exclusividade nordestina. Ele foi impregnado em toda a América Latina desde o período colonial. Reduzir Canudos a “fanatismo sertanejo” é ignorar um processo continental.

Outra distorção é classificar o sertão como “abandonado”. O sertão nunca foi terra de ninguém. Sempre teve donos: o latifúndio, o coronel, o curral eleitoral. Foi mapeado, controlado e explorado. O que existe é ausência deliberada de políticas públicas, não ausência de poder. O abandono pressupõe vazio; ausência de políticas denuncia projeto.

Ademais, o estereótipo do Nordeste “atrasado” oculta um fato econômico: historicamente, o Nordeste proporcionou as condições para o avanço do Sul e Sudeste, por meio de constante transferência de renda líquida para essas regiões. O “atraso” foi produzido.

Revisitar Os Sertões hoje é imperativo ético e científico. A pseudociência que fundamenta a obra ainda serve de régua para julgar o Nordeste. É uma régua torta, que mede equivocadamente. O jagunço não reivindica a tutela do “Forte”. Exige uma leitura sem preconceitos. Antes de repetir que “o sertanejo é um forte”, cumpre questionar as condições históricas que o compeliram a resistir.

SOBRE O AUTOR

Antônio Porfírio de Matos Neto. Graduações em Direito, Economia, Ciência Política, Filosofia e Administração. Pós-graduado em Gestão Municipal e em Gestão Pública. Mestre em Economia e doutorando em Filosofia. Professor da Universidade Federal de Sergipe.

NOTAS DE RODAPÉ

¹ Foram quatro expedições militares contra Canudos. As três primeiras foram derrotadas pelos sertanejos. A quarta expedição, em 1897, destruiu o arraial.

² “O arraial resistiu até 5 de outubro de 1897, quando morreram os quatro derradeiros defensores”.

³ BOAS, Franz. Race, Language and Culture. New York: The Macmillan Company, 1940. Obra fundamental que rompe com o evolucionismo cultural unilinear, base do pensamento de Euclides.

REFERÊNCIAS

BOAS, Franz. Race, Language and Culture. New York: The Macmillan Company, 1940.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões. Rio de Janeiro: Laemmert & C., 1902.

WIKIPÉDIA. Guerra de Canudos. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/GuerradeCanudos. Acesso em: 9 mai. 2026.

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