O século XVI viu nascer dois tipos de cristianismo dentro do mesmo hábito dominicano. De um lado, Tomás de Torquemada e o pragmatismo do mal: a crença de que fins sagrados justificam meios brutais. Do outro, Bartolomé de las Casas e a virtude do bem: a convicção de que nenhum fim justifica a destruição do humano. Um ficou na Espanha. O outro atravessou o Atlântico. Mas ambos moldaram a América Latina.
Torquemada: o pragmatismo do mal como política de Estado
Dominicano, nomeado Inquisidor-Geral em 1483, Torquemada entendia a heresia como doença do corpo social. Sua lógica era pragmática: para salvar a unidade da Espanha, era preciso extirpar o desvio. Auto de fé, confisco, tortura e expulsão viraram ferramentas. Cerca de 2.000 pessoas foram executadas sob sua gestão. Em 1492, o Édito de Granada expulsou os judeus.
O mal, aqui, não é visto como mal. É visto como método. É pragmatismo: coisa prática, decidida, calculada. Torquemada não odiava por prazer. Ele calculava. A fogueira era estatística da salvação: melhor queimar o corpo agora do que perder a alma para sempre. Esse pragmatismo não morreu com ele em 1498. Chegou à América com os tribunais da Inquisição em Lima, México e Cartagena. Era a cruzada que preferia a ordem à pessoa.
Las Casas: a virtude do bem como denúncia e proteção
Também dominicano, Las Casas desembarcou em 1502 e viu o sistema de encomienda moer gente em Cuba. A encomienda era o regime em que o rei entregava índios a colonos para “catequese e proteção”, mas na prática virava trabalho forçado nas minas e lavouras. Virou frade em 1522 e passou a pregar uma ideia escandalosa para o tempo: o índio, mesmo pagão, já era próximo. Já era humano. Já era alma.
Denunciou o trabalho forçado nas minas, a escravidão e a violência contra os povos originários. Para ele, a virtude estava em salvar vidas e denunciar o genocídio. Afirmava que a conversão só tinha valor se fosse livre. Em Valladolid, 1550, contra Sepúlveda, sustentou que os indígenas tinham direitos naturais. Na Brevíssima Relação (1552), trocou o cálculo pelo testemunho: narrou a destruição das Índias sem álibi teológico. Sua virtude contrariava a lógica da Coroa e dos colonos, justamente por ser evangélica: colocava o outro antes do lucro e da ordem.
Essa ética influenciou a outra cruzada que veio depois: a de Santo Inácio de Loyola. Os jesuítas chegaram em 1549 com gramáticas, não com grades. Fundaram colégios e reduções porque acreditavam que Deus já estava no outro antes do batismo. Era o princípio inaciano de “encontrar Deus em todas as coisas” levado ao extremo.
O fim como coerência
Las Casas renunciou ao poder — largou o bispado de Chiapas — e voltou para a Espanha em 1547. Morreu em 18 de julho de 1566, aos 81 anos, no Convento de Atocha, Madri. Pobre, frade, escrevendo até o fim petições ao rei em favor dos indígenas. Morreu como viveu: sem pragmatismo.
Torquemada morreu em 1498, em Ávila, cercado de poder e temido. Morreu como viveu: calculando almas.
Qual cruzada nos habita?
O pragmatismo do mal é eficiente. Unifica reinos, constrói impérios, mantém a ordem. A virtude do bem é exigente. Cobra coerência, questiona o rei, enfrenta o poder.
A América Latina foi fundada no choque entre essas duas cruzadas. Uma desceu nos portos com o Santo Ofício. A outra entrou nas aldeias com o abecedário tupi.
Hoje a pergunta permanece: quando a fé, a política ou a economia nos pedem para escolher entre a eficácia e a humanidade, de que lado da batina nós ficamos? Do lado de Torquemada, que queimava para salvar? Ou de Las Casas, que protegia e denunciava para não matar?
Referências
LAS CASAS, Bartolomé de. Brevíssima Relação da Destruição das Índias. Porto Alegre: L&PM, 1984.
PÉREZ, Joseph. A Inquisição Espanhola. Lisboa: Teorema, 2003.
TODOROV, Tzvetan. A Conquista da América: a questão do outro. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
SUESS, Paulo. A Conquista Espiritual da América Espanhola. Petrópolis: Vozes, 1992.
Autor:
Antônio Pofirio de Matos Neto
Graduação em: Direito, Economia, Filosofia, Administração e Ciências Política
Pós-Graduação em: Gestão Municipal
Pós-Graduando em: Gestão Pública
Mestre em: Economia
Doutorando em: Filosofia
Professor da Universidade Federal de Sergipe, Departamento de Economia


