Em abril de 1999, em entrevista a uma revista de circulação nacional, Celso Furtado narrou o episódio da morte de João Pessoa na Paraíba. Era um fato que marcou sua infância e estruturou seu pensamento: o caos na capital após o assassinato do governador, em 26 de julho de 1930.
Com apenas 10 anos, Furtado viu o luto político virar culto e violência. Contou que adeptos de João Pessoa tomavam as ruas em procissão, carregando fotografias do governador morto como imagens sacras. A cidade mergulhou numa histeria coletiva que se converteu em terror. Essa comoção instigava a perseguição sistemática de todos os adversários ligados a João Dantas, num clima de intolerância generalizada.
O cenário era de tragédia social. Furtado presenciou incêndios, negócios destruídos, pessoas apedrejadas e mortas. O medo dominava as ruas. A violência foi tamanha que sua família precisou deixar a casa próxima ao Palácio e se refugiar na casa da avó, em área mais segura, para escapar da convulsão que dominava a capital.
Aquele terror foi o prenúncio da Revolução de outubro de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder. O assassinato de João Pessoa acirrou as tensões nacionais e tornou-se o estopim simbólico da ruptura com a República Velha.
Na Formação Econômica do Brasil, Furtado expõe que o caos social no Nordeste, como o de 1930, resulta da concentração de renda e da dependência extrema. Quando a estrutura é desigual e dependente, o conflito político explode em violência. O episódio da Paraíba revela que a cultura, longe de ser apenas reflexo da economia, é também caminho para compreender e superar as crises econômicas.
Entender o Brasil é encarar tanto seus surtos de histeria quanto as estruturas que os produzem. Economia não se separa da cultura nem da memória.
Antônio Porfírio de Matos Neto
Administrador, Economista, Mestre em Economia, Cientista Político e Filósofo
Professor da Universidade Federal de Sergipe
Disciplina: Fundamentos da Economia
Membro da ABLAC – Academia Brasileira do Cangaço
Patrono da Cadeira: Celso Furtado


