Estou relendo duas obras fundamentais de Olímpio Rabelo de Morais para entender como o ciclo do algodão influenciou o processo da violência na região. Na época, Carira era povoado de Frei Paulo, na fronteira com a Bahia. As duas obras mostram como riqueza, isolamento e migração pós-Canudos moldaram a cultura local.
Retalhos de História (1966)
O livro registra Carira como povoado de Frei Paulo, em zona de fronteira com a Bahia. Na década de sessenta, quando eu ainda era criança e ia a Carira, a cidade já era emancipada, mas me causava receio porque mantinha aspecto de vilarejo, parecendo o Velho Oeste. O clima era de fronteira perigosa. Eu conhecia bem essas histórias porque meu pai era militar e sabia dos casos da região. A obra mostra como esse lugar, mesmo com a riqueza gerada pelo algodão, sustentou por muito tempo a cultura do isolamento e da lei do mais forte. Nesse contexto, o livro traz grande registro das fábricas de vapores de algodão de Manuel Gaspar, sogro de Olímpio Rabelo. Manuel Gaspar tinha origem no povoado Alagadiço e era pai de Marinete Rabelo, esposa de Olímpio Rabelo. Alagadiço ficava muito próximo de Carira. Tanto que os moradores de Alagadiço frequentavam mais a feira de Carira do que a feira da própria sede, que era Frei Paulo. As fábricas de vapores mostram a força econômica do ciclo, que convivia com a violência da fronteira.
Memórias: História, Folclórica, Lampião, Política …(1973)
Aqui Olímpio Rabelo, ex-deputado e primeiro prefeito eleito de Carira, liga diretamente Canudos a Carira para explicar a origem da violência. Grande parte da origem de Carira vem dos jagunços de Conselheiro. A maioria dos jagunços evadiu-se para Carira, não ficando até o término da Guerra de Canudos, e grande parte passou para o serviço de pistolagem na época. A obra também trata das excursões de Lampião na região de fronteira com a Bahia, mostrando como o cangaço se entranhou nesse território. Lampião ia muitas vezes a Alagadiço e também era ligado a Ana Rego, de Alagadiço. Havia um agrupamento político formado por Olímpio Rabelo, pelo coronel Napoleão Emídio da Costa, cunhado de Ana Rego, e pela própria Ana Rego, todos partidários. A feira de Carira, realizada na segunda-feira, era uma feira bastante sertaneja, de característica muito forte, ponto de encontro do comércio e da cultura local, mas também reflexo desse cenário tenso.
Altos Verdes permanece povoado de Carira e nunca mudou de status. Sempre foi ligado à localidade: quando os dois ainda eram povoados, já eram próximos, e quando Carira virou cidade, Altos Verdes passou a ser seu povoado. Até os anos 1970, foi um dos maiores celeiros de pistoleiros de Sergipe. Quem precisava contratar um pistoleiro ia a Altos Verdes. Isso ocorria naquela época. Hoje, nem Carira nem Altos Verdes mantêm traços de violência como no passado. A fama é apenas registro histórico.
Sobre o autor e Carira
Olímpio Rabelo de Morais foi fundamental na emancipação de Carira. O município foi desmembrado de Frei Paulo pela Lei Estadual nº 525-A, de 25 de novembro de 1953. A primeira eleição ocorreu em 3 de outubro de 1954. Ele tomou posse como primeiro prefeito eleito em 6 de fevereiro de 1955 e governou até 31 de janeiro de 1959. Foi sucedido por Antonio Conrado de Souza, conhecido como Totonho Conrado, que governou de 1959 a 1963.
Por que essas obras são importantes
Elas explicam o processo da violência a partir do ciclo do algodão. Mostram que, apesar da riqueza gerada pelo algodão, a região de Carira, na fronteira com a Bahia, teve suas margens de origem ligadas aos jagunços que vieram da Guerra de Canudos e às passagens de Lampião na época. Esse fluxo, somado à cultura da pistolagem consolidada em Altos Verdes no passado, explica por que a área se tornou referência histórica de pistoleiros em Sergipe.
Antonio Porfirio de Matos Neto
Gestor do Museu do Cangaço
Povoado Alagadiço Frei Paulo

