Para responder a essa questão, é necessário recorrer a argumentos científicos e antropológicos. Desde que o movimento evolucionista estabeleceu as bases para a definição de conceitos a partir de um paradigma eurocêntrico, passou-se a classificar a cultura como “civilizada” em oposição à cultura dos nativos da América, recém-invadida em razão da busca pela miragem da prata e do ouro. Esse episódio foi classificado pelo professor Celso Furtado como a fase da expansão comercial da Europa durante o mercantilismo.
Para justificar a exploração dos povos originários e da própria natureza, os estudos da época organizaram uma classificação em fases horizontais, rotulando esses povos como primitivos, bárbaros, desprovidos de cultura e de civilização. Segundo os adeptos dessa pseudociência, o fato de não professarem a religião europeia, o cristianismo, era mais uma evidência de sua suposta inferioridade. Somados a esses fatores, os interesses expansionistas e as disputas entre potências europeias pelo domínio das novas terras culminaram em um verdadeiro holocausto promovido contra os povos americanos, perpetrado por aqueles que se autodeclaravam “civilizados”.
A ausência de um Estado entre esses povos foi interpretada como um sinal de atraso e justificativa para a imposição violenta da cultura europeia. Essa concepção etnocêntrica, impregnada de interesses econômicos e coloniais, deixou um legado devastador para as sociedades nativas do continente americano.
Algumas missões religiosas, especialmente aquelas organizadas por Inácio de Loyola, foram impulsionadas pela necessidade de conter o avanço do protestantismo tanto na Europa quanto nas colônias. Nesse contexto, foi criada a Companhia de Jesus, braço da Contra-Reforma, cuja política de expansão religiosa e cultural impôs graves consequências aos povos indígenas, submetidos a abusos, conversões forçadas e exploração sistemática.
A ideia de civilização, tal como difundida à época, legitimou a exploração, a expropriação e a manutenção de regimes de escravidão. Um exemplo emblemático pode ser observado entre os incas no Peru, obrigados a trabalhar nas minas de prata, onde eram expostos ao mercúrio utilizado no processo de purificação do metal. A cidade de Potosí, na atual Bolívia, tornou-se uma das mais ricas e populosas do mundo à época, sustentada pela exploração intensa dos recursos naturais e da mão de obra indígena. As primeiras denúncias sobre tais atrocidades vieram de figuras como Frei Bartolomeu de Las Casas, que se destacou por denunciar com veemência a subjugação dos povos gentios.
Foi apenas com o surgimento de antropólogos como Franz Boas que se iniciou um processo de revisão crítica da teoria evolucionista e da visão eurocêntrica da história. Boas argumentou que os povos chamados gentios possuíam suas próprias civilizações e culturas, e que a diversidade cultural era uma característica essencial da humanidade. Posteriormente, o antropólogo Pierre Clastres, em sua obra A Sociedade contra o Estado, analisou a organização social dos nativos da América Latina, reconhecendo nelas estruturas coesas e funcionais, mesmo desprovidas daquilo que se convencionou chamar de “Estado”.
Essa compreensão nos convida a questionar a ideia de que o Estado é uma necessidade universal. Talvez, ao invés de impor nossos conceitos ocidentais de Estado e civilização a outras culturas, devamos aprender a reconhecer e respeitar as distintas formas de organização social que existem mundo afora. A diversidade cultural representa uma riqueza inestimável, e sua preservação é essencial para que possamos conviver com o outro sem ofensa à sua dignidade.
Além disso, é imprescindível reconhecer que a permanência de uma visão evolucionista e eurocêntrica da história ainda repercute nos dias atuais. A imposição de determinados modelos culturais pode causar sérios danos, como a perda da identidade étnica, a exploração econômica e a violência estrutural. Diante disso, torna-se fundamental que nós, enquanto sociedade, aprendamos a valorizar a pluralidade cultural e a promover a inclusão e o respeito às diferenças.
Em síntese, a discussão sobre a existência de sociedades sem Estado nos conduz a uma reflexão mais ampla sobre o valor da diversidade e a urgência de reconhecer e preservar as distintas expressões culturais da humanidade. É nosso dever coletivo cultivar a tolerância, compreender o outro em sua essência e trabalhar pela construção de uma convivência verdadeiramente plural e inclusiva.
Antônio Porfirio de Matos Neto
Graduação em Direito, Economia , Ciências Políticas e Filosofia
Graduando em História
Pós graduação em Gestão Municipal
Mestre em Economia
Doutorando em Filosofia


