“Gilvan Rocha e a Memória Política Silenciada”, obra do ilustre intelectual e professor Jorge Carvalho, resgata a história do médico que, em 1974, abalou profundamente a estrutura do poder em Sergipe, tornando-se notícia em âmbito nacional. Seu grande feito foi derrotar o candidato governista, símbolo do conservadorismo, cuja vitória era dada como certa: o engenheiro Dr. Leandro Maciel, como era conhecido, pelo menos em Frei Paulo.
O professor Jorge Carvalho, além de mestre na oralidade, revela-se exímio na escrita. É necessário estarmos atentos às sutilezas de suas palavras para captar as diversas proposições e informações subjacentes, talvez o termo “informes” seja o mais apropriado para expressar a linha de raciocínio adotada pelo eminente catedrático sergipano. Ele nos convida, a todos nós sergipanos, a assumirmos um compromisso com a história, sobretudo neste marco de 50 anos do início do mandato do senador revolucionário Gilvan Rocha.
Nos longínquos anos de 1974, eu completava 11 anos na conservadora cidade de Frei Paulo, que, em meio ao seu tradicionalismo, abrigava alguns poucos que se arriscavam a manter uma pequena célula do MDB. A cidade sempre foi uma mescla geográfica entre o agreste e os primeiros traços do sertão, onde a lavoura do algodão, outrora símbolo de riqueza dos abastados fazendeiros, já não florescia mais. À época, a riqueza advinha da pecuária, verdadeiro símbolo do poder econômico e político, com a produção de leite e carne bovina in natura, abastecendo diversas feiras livres do estado, especialmente a capital.
Os chamados “coronéis”, comumente os fazendeiros, eram ícones do conservadorismo na política local. O resultado da eleição municipal em Frei Paulo se resumia à definição de qual vertente da Arena, Arena 1 ou Arena 2, administraria o município, sempre sob o patrocínio do regime militar e dos latifundiários. Em simples reuniões, decidia-se quem comandaria a prefeitura e, por consequência, a velha e conservadora Frei Paulo.
Em relação à eleição para o Senado, o médico Gilvan Rocha era alvo de críticas entre os fazendeiros por ousar candidatar-se contra Dr. Leandro. “Quem é esse desconhecido?”, diziam nas bodegas e na famosa casa de sinuca e bilhar do Sr. Zé Pequeno. Enquanto os jogadores arriscavam suas tacadas, cada bola caçapada vinha acompanhada de um comentário debochado: “O que Dr. Leandro vai fazer com esse doutorzinho?”. Assim se erguia a máquina de propaganda local, que dava como certa a vitória do engenheiro sobre o jovem médico.
Mas eis que veio o inesquecível comício do MDB. Eu, ainda muito jovem, estava em Alagadiço, num domingo de feira tradicional daquele povoado, que ostentava, com orgulho, a fama de haver dado cabo dos cangaceiros de Lampião, sob a liderança do lendário Pantera Negra, Zé Bahiano. Tudo transcorria normalmente até que, no céu, surgiu um objeto jamais visto por aqueles olhos sertanejos. Muitos correram a buscar seus velhos facões e foices para se defender do estranho artefato. Alguns afirmavam que o objeto vinha da Toca da Onça, antigo esconderijo de Zé Bahiano. A feira foi interrompida. O objeto pousou na praça: era, na verdade, um helicóptero, contratado pelos Teixeiras para os comícios do MDB.
A única tecnologia de som disponível foi a da igreja. Após convencerem o sacristão a ceder os equipamentos, o uso resultou na demissão do auxiliar eclesiástico. Resolvido o mal-entendido, desembarcaram do helicóptero Ovídeo Teixeira, Zé Carlos Teixeira e o emblemático Gilvan Rocha. Foi um acontecimento que tive a honra de presenciar. Nunca havia visto um helicóptero. E, de súbito, homens falando em liberdade! Palavras desconhecidas para uma criança da minha idade, que ainda ouvia, com espanto, expressões como “oligarquia ruralista de Frei Paulo” referindo-se aos conservadores locais. Era surreal, parecia assistir a um filme pela primeira vez.
Dr. Gilvan, sereno e seguro na oratória, e Zé Carlos Teixeira, inflamado em seu discurso, atacavam diretamente a liderança local, o poderoso chefe político e pecuarista João Teles da Costa. A descrença que cercava Gilvan Rocha começou a ceder lugar à dúvida: seria mesmo certa a vitória de Leandro Maciel? E então, no emblemático 15 de novembro, a surpresa transformou-se em realidade: a vitória foi do jovem médico.
Parabenizo o professor Jorge Carvalho por seu chamamento à memória. Ele nos convida a não esquecer jamais esse grande senador que mudou o curso da história política sergipana ao derrotar o Golias do conservadorismo. Um feito que permanecerá para sempre na memória coletiva, pois Gilvan Rocha é o nosso Davi sergipano.
Antônio Porfirio de Matos Neto
Graduação em Direito, Economia, Ciências Políticas e Filosofia
Pós graduação em Gestão Municipal
Mestre em Economia
Doutorando em Filosofia


