{"id":19548,"date":"2026-05-19T00:35:54","date_gmt":"2026-05-19T03:35:54","guid":{"rendered":"https:\/\/ocoerente.com.br\/se\/?p=19548"},"modified":"2026-05-19T00:35:56","modified_gmt":"2026-05-19T03:35:56","slug":"critica-a-os-sertoes-contradicoes-e-reinterpretacao-do-jagunco-guerrilheiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ocoerente.com.br\/se\/2026\/05\/19\/critica-a-os-sertoes-contradicoes-e-reinterpretacao-do-jagunco-guerrilheiro\/","title":{"rendered":"CR\u00cdTICA \u00c0 OS SERT\u00d5ES: CONTRADI\u00c7\u00d5ES E REINTERPRETA\u00c7\u00c3O DO JAGUN\u00c7O-GUERRILHEIRO"},"content":{"rendered":"\n<p>Ant\u00f4nio Porf\u00edrio de Matos Neto<\/p>\n\n\n\n<p>RESUMO<\/p>\n\n\n\n<p>Este ensaio analisa criticamente a obra Os Sert\u00f5es, de Euclides da Cunha, marcada por base positivista e evolucionista. Em contraposi\u00e7\u00e3o a essa leitura, defende-se aqui a tese de que o jagun\u00e7o era um guerrilheiro da caatinga. Argumenta-se que a derrota de tr\u00eas expedi\u00e7\u00f5es militares evidencia estrat\u00e9gia, n\u00e3o atraso, e que a matriz euclidiana reproduz uma pseudoci\u00eancia ainda usada para julgar o Nordeste.<\/p>\n\n\n\n<p>Palavras-chave: Euclides da Cunha. Canudos. Jagun\u00e7o. Evolucionismo cultural. Nordeste.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e1xima \u201co sertanejo \u00e9, antes de tudo, um forte\u201d n\u00e3o redime Euclides da Cunha; ao contr\u00e1rio, denuncia a contradi\u00e7\u00e3o que estrutura Os Sert\u00f5es. Redigida sob a \u00e9gide do positivismo e do evolucionismo do s\u00e9culo XIX, a obra analisa o sertanejo por uma lente hier\u00e1rquica: mede, compara e condena. A for\u00e7a aparece como exce\u00e7\u00e3o ex\u00f3tica; a regra impl\u00edcita \u00e9 o atraso.<\/p>\n\n\n\n<p>A tese deste ensaio contrap\u00f5e-se a Euclides: o jagun\u00e7o n\u00e3o era o fragilizado que se fortaleceu por necessidade. Era, em ess\u00eancia, um guerrilheiro da caatinga \u2014 esguio, vers\u00e1til e senhor do territ\u00f3rio. A hist\u00f3ria comprova essa tese. O Ex\u00e9rcito Republicano, s\u00edmbolo da t\u00e9cnica e da \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d, enviou quatro expedi\u00e7\u00f5es militares contra Canudos\u00b9. As tr\u00eas primeiras foram derrotadas pelos jagun\u00e7os de Ant\u00f4nio Conselheiro. O Ex\u00e9rcito venceu apenas na quarta expedi\u00e7\u00e3o, em outubro de 1897, quando arrasou o arraial\u00b2.<\/p>\n\n\n\n<p>Todavia, o fato de terem sido necess\u00e1rias quatro campanhas, mobilizando doze mil soldados de dezessete estados, desmonta a narrativa do \u201catraso\u201d. Quem venceu tr\u00eas batalhas? O sertanejo sem academia militar, sem Estado-Maior, sem manuais de guerra.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao tomar Canudos, as tropas encontraram apenas mulheres, velhos e crian\u00e7as. Onde estavam os combatentes? Os \u201cfortes\u201d n\u00e3o se deixaram catalogar pelo olhar do vencedor. A resist\u00eancia recusou-se a tornar-se pe\u00e7a de museu. O que Euclides descreve como vazio \u00e9, na verdade, evid\u00eancia de estrat\u00e9gia. Eram guerrilheiros, n\u00e3o fan\u00e1ticos empunhando ora\u00e7\u00f5es: nunca se registrou, na hist\u00f3ria, que mulheres e crian\u00e7as derrubassem ex\u00e9rcitos. Foram jagun\u00e7os que resistiram.<\/p>\n\n\n\n<p>O equ\u00edvoco te\u00f3rico de Euclides reside em sua filia\u00e7\u00e3o a uma pseudoci\u00eancia. Ele n\u00e3o dialoga com Franz Boas, que destruiu a tese do evolucionismo linear e demonstrou a inexist\u00eancia de hierarquia universal entre culturas\u00b3. Euclides l\u00ea a diferen\u00e7a como inferioridade. Essa matriz ainda persiste: analistas do Sul e Sudeste reproduzem, sem cr\u00edtica, o diagn\u00f3stico euclidiano e convertem estere\u00f3tipo em pol\u00edtica p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso esclarecer: o fen\u00f4meno messi\u00e2nico-religioso n\u00e3o \u00e9 exclusividade nordestina. Ele foi impregnado em toda a Am\u00e9rica Latina desde o per\u00edodo colonial. Reduzir Canudos a \u201cfanatismo sertanejo\u201d \u00e9 ignorar um processo continental.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra distor\u00e7\u00e3o \u00e9 classificar o sert\u00e3o como \u201cabandonado\u201d. O sert\u00e3o nunca foi terra de ningu\u00e9m. Sempre teve donos: o latif\u00fandio, o coronel, o curral eleitoral. Foi mapeado, controlado e explorado. O que existe \u00e9 aus\u00eancia deliberada de pol\u00edticas p\u00fablicas, n\u00e3o aus\u00eancia de poder. O abandono pressup\u00f5e vazio; aus\u00eancia de pol\u00edticas denuncia projeto.<\/p>\n\n\n\n<p>Ademais, o estere\u00f3tipo do Nordeste \u201catrasado\u201d oculta um fato econ\u00f4mico: historicamente, o Nordeste proporcionou as condi\u00e7\u00f5es para o avan\u00e7o do Sul e Sudeste, por meio de constante transfer\u00eancia de renda l\u00edquida para essas regi\u00f5es. O \u201catraso\u201d foi produzido.<\/p>\n\n\n\n<p>Revisitar Os Sert\u00f5es hoje \u00e9 imperativo \u00e9tico e cient\u00edfico. A pseudoci\u00eancia que fundamenta a obra ainda serve de r\u00e9gua para julgar o Nordeste. \u00c9 uma r\u00e9gua torta, que mede equivocadamente. O jagun\u00e7o n\u00e3o reivindica a tutela do \u201cForte\u201d. Exige uma leitura sem preconceitos. Antes de repetir que \u201co sertanejo \u00e9 um forte\u201d, cumpre questionar as condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que o compeliram a resistir.<\/p>\n\n\n\n<p>SOBRE O AUTOR<\/p>\n\n\n\n<p>Ant\u00f4nio Porf\u00edrio de Matos Neto. Gradua\u00e7\u00f5es em Direito, Economia, Ci\u00eancia Pol\u00edtica, Filosofia e Administra\u00e7\u00e3o. P\u00f3s-graduado em Gest\u00e3o Municipal e em Gest\u00e3o P\u00fablica. Mestre em Economia e doutorando em Filosofia. Professor da Universidade Federal de Sergipe.<\/p>\n\n\n\n<p>NOTAS DE RODAP\u00c9<\/p>\n\n\n\n<p>\u00b9 Foram quatro expedi\u00e7\u00f5es militares contra Canudos. As tr\u00eas primeiras foram derrotadas pelos sertanejos. A quarta expedi\u00e7\u00e3o, em 1897, destruiu o arraial.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00b2 \u201cO arraial resistiu at\u00e9 5 de outubro de 1897, quando morreram os quatro derradeiros defensores\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00b3 BOAS, Franz. Race, Language and Culture. New York: The Macmillan Company, 1940. Obra fundamental que rompe com o evolucionismo cultural unilinear, base do pensamento de Euclides.<\/p>\n\n\n\n<p>REFER\u00caNCIAS<\/p>\n\n\n\n<p>BOAS, Franz. Race, Language and Culture. New York: The Macmillan Company, 1940.<\/p>\n\n\n\n<p>CUNHA, Euclides da. Os Sert\u00f5es. Rio de Janeiro: Laemmert &amp; C., 1902.<\/p>\n\n\n\n<p>WIKIP\u00c9DIA. Guerra de Canudos. Dispon\u00edvel em: https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/GuerradeCanudos. Acesso em: 9 mai. 2026.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f4nio Porf\u00edrio de Matos Neto RESUMO Este ensaio analisa criticamente a obra Os Sert\u00f5es, de Euclides da Cunha, marcada por base positivista e evolucionista. Em contraposi\u00e7\u00e3o a essa leitura, defende-se aqui a tese de que o jagun\u00e7o era um guerrilheiro da caatinga. 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