{"id":14518,"date":"2025-05-14T18:40:50","date_gmt":"2025-05-14T21:40:50","guid":{"rendered":"https:\/\/ocoerente.com.br\/se\/?p=14518"},"modified":"2025-05-14T18:42:16","modified_gmt":"2025-05-14T21:42:16","slug":"ficcao-que-sobressai-a-morte-de-odete-roitman-e-o-esquecimento-de-chico-mendes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ocoerente.com.br\/se\/2025\/05\/14\/ficcao-que-sobressai-a-morte-de-odete-roitman-e-o-esquecimento-de-chico-mendes\/","title":{"rendered":"A Fic\u00e7\u00e3o que Sobressai: A Morte de Odete Roitman e o Esquecimento de Chico Mendes"},"content":{"rendered":"\n<p>Odete Roitman e Chico Mendes. A novela Vale Tudo tinha como personagem central Odete Roitman, exibida originalmente pela TV Globo de 16 de agosto de 1988 a 6 de janeiro de 1989. Hoje, em 2025, est\u00e1 sendo produzido um remake da novela, com artistas obviamente diferentes, mas mantendo a ic\u00f4nica personagem: a famosa Odete Roitman. J\u00e1 se passaram 37 anos desde sua estreia e, coincidentemente, o mesmo per\u00edodo desde o assassinato de Chico Mendes, ambientalista que vivia em Xapuri, no Acre. O que h\u00e1 em comum entre essas duas figuras, uma fict\u00edcia e a outra real, para que um cientista pol\u00edtico escreva um ensaio a respeito? Para mim, as lembran\u00e7as desses dois eventos de assassinato ressurgiram recentemente e, por isso, decidi tra\u00e7ar uma linha de racioc\u00ednio sobre ambos os casos.<\/p>\n\n\n\n<p>Chico Mendes foi assassinado em 22 de dezembro de 1988, em um momento em que o Brasil j\u00e1 conhecia o resultado da elei\u00e7\u00e3o com a vit\u00f3ria de Fernando Collor, presidente eleito, que se tornaria um s\u00edmbolo do liberalismo promovido por setores da elite brasileira, em parte influenciada pela cultura pol\u00edtica norte-americana. J\u00e1 tratei desse fen\u00f4meno em outro ensaio sobre o SUS e o capitalismo. Naquele contexto, o cen\u00e1rio pol\u00edtico estava delineado com conservadores e pseudo-conservadores, aqueles indiv\u00edduos da classe m\u00e9dia que se identificavam como elite. Paralelamente, tamb\u00e9m era o per\u00edodo em que Odete Roitman, personagem fict\u00edcia, foi assassinada na novela. O Brasil ainda tentava se livrar das reminisc\u00eancias do regime militar, que permaneciam arraigadas na mentalidade de muitos, nost\u00e1lgicos do uniforme verde-oliva.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de ocorrerem quase simultaneamente, as duas mortes t\u00eam motiva\u00e7\u00f5es e significados distintos. De um lado, Odete Roitman, uma personagem elitista, que se esfor\u00e7ava para imitar a sofistica\u00e7\u00e3o europeia, ainda que de maneira for\u00e7ada e caricata. De outro, Chico Mendes, um cidad\u00e3o dedicado \u00e0 defesa da natureza, cuja luta tinha ra\u00edzes profundas e leg\u00edtimas na preserva\u00e7\u00e3o ambiental e nos direitos dos seringueiros.<\/p>\n\n\n\n<p>O impacto dos assassinatos tamb\u00e9m foi diferente: enquanto a morte de Odete Roitman mobilizou o imagin\u00e1rio popular, tornando-se o grande mist\u00e9rio nacional, comentado nas rodas de conversa, reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, feiras livres e escolas, o assassinato de Chico Mendes obteve uma repercuss\u00e3o discreta no Brasil. No entanto, a indigna\u00e7\u00e3o pela morte de Chico Mendes ecoou internacionalmente. Movimentos ambientalistas e cidad\u00e3os do mundo inteiro buscavam responsabiliza\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a, enquanto, por aqui, com raras exce\u00e7\u00f5es, como a m\u00fasica &#8220;Xote Ecol\u00f3gico&#8221;, de Luiz Gonzaga, poucos refletiam sobre a trag\u00e9dia. Gonzaga, com seu estilo inconfund\u00edvel, cantava: &#8220;N\u00e3o posso mais nadar\u2026 E o verde onde \u00e9 que est\u00e1? Polui\u00e7\u00e3o comeu. Nem o Chico sobreviveu&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto se desenrolava o mist\u00e9rio sobre o assassinato de Odete Roitman, o pa\u00eds tamb\u00e9m testemunhava os primeiros movimentos do governo Collor. Nos bastidores, o presidente eleito j\u00e1 articulava um plano controverso: o confisco da poupan\u00e7a da classe m\u00e9dia e dos trabalhadores, estrat\u00e9gia que n\u00e3o afetaria os grandes investidores, que preferem o mercado financeiro. Ao mesmo tempo, a futura ministra da economia, adepta de um liberalismo distorcido e superficial, preparava as bases para pol\u00edticas econ\u00f4micas que agravariam as desigualdades sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>O contraste \u00e9 evidente: enquanto a fic\u00e7\u00e3o mobilizava paix\u00f5es e especula\u00e7\u00f5es sobre um crime fict\u00edcio, a realidade brutal do assassinato de um l\u00edder ambiental recebia tratamento secund\u00e1rio no cen\u00e1rio nacional. Odete Roitman, ainda que personagem de fic\u00e7\u00e3o, representava um \u00edcone midi\u00e1tico capaz de capturar a aten\u00e7\u00e3o coletiva, enquanto a morte de Chico Mendes, um homem real que lutava pelos direitos dos povos da floresta, n\u00e3o alcan\u00e7ava a mesma mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Trinta e sete anos depois, o remake de Vale Tudo resgata a personagem elitista e conservadora que marcou a teledramaturgia brasileira. Odete Roitman, mesmo fict\u00edcia, mant\u00e9m seu lugar no imagin\u00e1rio popular. J\u00e1 Chico Mendes, um ativista que deu sua vida por um Brasil mais justo e sustent\u00e1vel, permanece em certa medida esquecido.<\/p>\n\n\n\n<p>O que esses dois epis\u00f3dios nos ensinam? Talvez que a fic\u00e7\u00e3o, especialmente quando espetacularizada, tenha o poder de obscurecer a mem\u00f3ria coletiva sobre aqueles que verdadeiramente dedicaram suas vidas \u00e0s causas sociais e ambientais. A lembran\u00e7a de Odete permanece viva, enquanto a luta de Chico, em muitos aspectos, segue silenciada no pr\u00f3prio pa\u00eds que ele tanto amou e tentou proteger. Refletir sobre essas duas mortes, uma que mobilizou a curiosidade nacional e outra que evocou lamentos al\u00e9m das fronteiras, \u00e9 um exerc\u00edcio de autocr\u00edtica para a sociedade brasileira. Se, por um lado, a narrativa ficcional se imp\u00f4s como um acontecimento coletivo, por outro, a luta de um homem real pela preserva\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia ainda parece relegada a um segundo plano, abafada por d\u00e9cadas de descaso e pela aus\u00eancia de uma mem\u00f3ria ativa. \u00c9 como se, diante do espet\u00e1culo televisivo, a vida e o sacrif\u00edcio de Chico Mendes fossem um enredo menos interessante, menos rent\u00e1vel e menos digno de ser lembrado. Assim, enquanto se revive a morte de uma personagem rica e preconceituosa na fic\u00e7\u00e3o televisiva, o verdadeiro her\u00f3i, que lutou pela floresta e pelo povo, permanece esquecido. Talvez seja hora de revermos nossas prioridades narrativas e reconhecer que a luta por justi\u00e7a ambiental deveria ter o mesmo apelo midi\u00e1tico que a resolu\u00e7\u00e3o de um crime de novela. O Brasil precisa entender que sua identidade n\u00e3o pode estar mais atrelada ao folhetim do que \u00e0 realidade daqueles que dedicaram a vida a um futuro mais justo e equilibrado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ant\u00f4nio Porfirio de Matos Neto<\/strong><br>Gradua\u00e7\u00e3o em Direito, Economia, Ci\u00eancias Pol\u00edticas e Filosofia<br>Graduando em Hist\u00f3ria<br>P\u00f3s Gradua\u00e7\u00e3o em Gest\u00e3o Municipal<br>P\u00f3s Graduando em Gest\u00e3o P\u00fablica<br>Mestre em Economia<br>Doutorando em Filosofia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Odete Roitman e Chico Mendes. A novela Vale Tudo tinha como personagem central Odete Roitman, exibida originalmente pela TV Globo de 16 de agosto de 1988 a 6 de janeiro de 1989. Hoje, em 2025, est\u00e1 sendo produzido um remake da novela, com artistas obviamente diferentes, mas mantendo a ic\u00f4nica personagem: a famosa Odete Roitman. 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