Santo Agostinho de Hipona, um dos mais influentes filósofos e teólogos da Igreja Católica, passou a vida toda buscando entender como um Deus bom e onipotente pode permitir a existência do mal no mundo. Inicialmente, Agostinho foi influenciado pela doutrina maniqueísta, que defendia a existência de dois princípios opostos: o bem e o mal. No entanto, ele não se satisfez com essa teoria, pois não dava respostas satisfatórias para as questões que o perturbavam. O ponto de inflexão na vida de Agostinho foi o seu encontro com o bispo Ambrósio de Milão, que o apresentou à fé católica e o levou a uma profunda reflexão sobre a natureza do bem e do mal. Ambrósio mostrou a Agostinho que a verdade é uma revelação que se encontra no coração da fé católica, e que a liberdade humana é um dom de Deus que permite ao homem escolher entre o bem e o mal.
A partir desse momento, Agostinho começou a desenvolver sua teoria do livre-arbítrio, que se tornou central em sua filosofia. Ele entende que a liberdade humana propicia as suas escolhas, que vão depender da sua vontade. Tal liberdade lhe dá o direito ao livre-arbítrio, ou seja, dá direito de escolher o que melhor lhe convém, baseado na busca constante do bem para se manter numa vida de retidão. Quando o homem se desvia desse caminho e passa a trilhar o caminho que o distância do Bem Maior, que é Deus, para seguir um mal, é porque ele optou pelo mal em vez do bem. Vale ressaltar que o mal é alcançado quando há uma corrupção do bem, que se divide em categorias, a saber: “a perfeição, a medida e a forma”. Buscando detalhar melhor a questão do mal, podemos dizer que “o mal não foi criado por Deus”, porque Deus é Bondade, Bem e Perfeição; dessa forma, Ele não criaria o mal. O mal é fruto da criação do homem quando se afasta de uma vida reta, pautada nos ensinamentos de bem viver a vida, seguindo suas vontades corretas, as quais são obtidas pelo livre-arbítrio, que deve seguir uma liberdade baseada nas ações morais.
O homem deve ter conhecimento das coisas do mundo e, sobretudo, de que Deus é a felicidade primeira na vida do homem. É por causa disso que o homem deve procurar se afastar do mal e buscar sempre o bem, para se distanciar do que não é bom para ele, evitando, dessa maneira, abrir espaço para o pecado e o mal na sua vida. É possível ler, na obra de Agostinho de Hipona, que o mal se relaciona às ações do homem, fato que é de inteira responsabilidade dele; assim, Deus não pode ser considerado como o criador do mal, mas sim o homem, já que o mal existe por causa do livre-arbítrio, que é dado ao homem de escolher, segundo sua vontade, se quer se afastar do mal ou do bem. Tendo o homem a liberdade de escolher o caminho que quer seguir, lembrando que a liberdade é o bem ou a “graça divina”, ele cria o mal quando cria a desordem dos valores da perfeição, medida ou forma. Basta ao homem desajustar um desses para que gere uma desordem, e, sendo assim, a desordem não é gerada ou formulada por Deus.
O problema da liberdade existe quando o homem faz um uso incorreto nas suas escolhas entre os princípios éticos e morais que o aproximam de Deus e do Bem, para optar, segundo sua própria vontade, por se satisfazer com as coisas que o desvia e gera uma desordem que cria o mal. Portanto, o homem é possuidor da liberdade dada por Deus, podendo fazer uso do seu livrearbítrio nas suas escolhas, que são guiadas por sua vontade; porém, quando se afasta da perfeição dos atos éticos e morais de Deus e se aproxima do mal, que não foi criado por Deus, mas sim por ele, certamente, quando deixa que sua vontade por coisas do mundo se sobreponha às retidões ofertadas por Deus, o homem se distancia ainda mais do Bem, que é Deus.
Antônio Porfirio de Matos Neto
Graduação: Direito, Economia, Filosofia, Ciências Políticas e Administração
Graduando: História e Engenharia de Produção
Pós-graduação: Gestão Pública e Gestão Municipal
Titulações: Mestre em Economia e Doutorando em Filosofia


